Eu era exactamente como tu, era uma pessoa. Nasci numa terra longe daqui, uma cidade ao lado da qual Ormuz e Bagdad são meras sombras. É uma cidade que tem muralhas tão altas como Damasco, jardins tão belos como Bagdad e mulheres...que mulheres! mulheres mais belas que cada uma em si, encerra a beleza toda junta das mulheres do Cairo.
Foi nessa terra que nasci, o meu pai, governador amado do rei, tinha esta cidade a seu cargo. Lá fazia a sua vida, a sua felicidade e teve dois filhos, o meu irmão, era o filho mais velho e eu o mero infante, mas igualmente amado pelo meu pai e pela minha mãe.
Para a nossa educação, o meu pai não teve qualquer limitação ou receio, entregou-nos aos melhores educadores que encontrou, e de preferência aqueles que fossem mais liberais, se calhar, penso eu agora olhando para trás, ele queria assegurar-se que nenhumas trevas alguma vez toldassem o nosso espírito e a nossa maneira de pensar. Olhando para trás ainda mais, penso que se calhar tudo estava já escrito nas estrelas, e alguma feiticeira ou vidente o tivesse avisado do que estaria para acontecer.
Tive uma infância rígida, mas feliz. Acompanhado do meu irmão quase sempre, acordávamos cedo e tinhamos as nossas aulas, desde a matemática à poesia e astronomia, passando pela esgrima e pela etiqueta, tudo actividades que visavam o melhor para nós no futuro e onde, infelizmente, digo sem arrogância que sempre me revelava melhor aluno que o meu irmão, facto que entre nós era visível e que ele aceitava com um sorriso e um amor fraternal que fazia de nós indivisiveis.
A minha mãe era das mulheres mais belas da cidade, e isso era reconhecido por toda a população que a acarinhava enquanto mulher do meu pai. Em consequência, tanto eu como o meu irmão, embora não ache que fossemos especialmente bonitos, eramos vistos na cidade como tal, talvez por termos traços que recordava, quem quer que nos olhasse, dos traços da nossa própria mãe. Dela herdámos a discrição, do nosso pai, a força na espada e na justiça, feito que nele admirávamos substancialmente. Desde pequenos, aliás, ele deixáva-nos assistir aos julgamentos e outros afazeres de administração no reino, embora, confesse, enquanto pequenos pouco tempo eramos capazes de suportar sem nos aborrecermos, pois tudo aquilo nos parecia muito chato.
Com a idade contudo, e certamente com a educação que recebiamos, fomos entendendo a importância dessas coisas, de como a justiça e a sua aplicação célere eram a base da sociedade em paz, como a fome e a ignorância eram os verdadeiros motivos de todos os crimes, como a inveja e a vergonha eram coisas que, numa cidade tão bela, não tinham qualquer lugar. O que um desperdiçava, era dado àquele que o necessitava.
O meu irmão, o qual tomaria o lugar do meu pai no governo da cidade, completou a sua educação à idade de catorze anos, e partiu para cumprir as suas honras militares no perímetro exterior da cidade, eu seguiria dois anos depois para semelhante cargo, de forma que compreendêssemos a importância destes homens, que defendiam os nossos valores e forma de vida. Na última noite, despedimo-nos e professámos um ao outro a nossa amizade e mútua admiração.
À porta do palácio, antes dele partir para o acampamento, disse-me: "- Achas que nos casaremos?" pergunta que me deixou admirado e à qual respondi que certamente nos casaríamos, ele primeiro, como em tudo, eu em seguida, como em tudo. "- E teremos mulheres de igual dote e valor?", pois certamente disse-lhe eu, já que sendo irmãos filhos de iguais pais e de igual valor, nada faria mais sentido que casarmos com mulheres de igual dote e valor. Depois ele perguntou com ar de esperança e felicidade no futuro que imaginava, "- ...e os nossos filhos, teremos filhos?" Ao que mais uma vez acenei afirmativamente. "- E achas que se eu tiver um rapaz e tu uma rapariga, eles casarão um com o outro?" Pois claro, disse rindo, imaginando a coincidência, "- e darei à minha filha igual dote àquele que esperarei receber se a situação ocorrer ao contrário." Nesse momento o sorriso da cara dele apagou-se, e rapidamente disse: " -Certamente que nessa situação não será assim, não te esqueças irmãozinho, que eu sou o primogénito e tu apenas o segundo em linhagem. Embora de igual valor a mim, o dote que a minha filha receberia seria necessariamente maior que o da tua se acontecesse ao contrário, pois ela certamente valeria mais." Tomando o comentário como uma brincadeira, respondi apenas que assim não poderia ser, pois a minha filho, saíndo a mim, seria sempre mais inteligente, e por isso mais valioso, e que quanto ao título, pelo casamento ele acabaria sobrando para o meu lado da família". Com brusquidão ele virou costas, e foi-se embora. Foi assim que, sem me aperceber bem porquê, compreendi que eu e o meu irmão tinhamos tido a nossa primeira discórdia.


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