Perante este ser, de que nunca tinha visto ou ouvido falar, a ínicio preocupou-me que tipo de reacção poderia causar. Cheguei a pensar - disse-me - que fosse o meu carrasco e que deixá-lo na cela perto da minha fosse alguma piada de mau gosto, para que este estranho animal fosse aprendendo a reconhecer a sua presa, apenas para depois, em momento de execução publica, ser estilhaçado por este animal. Talvez a minha morte bárbara fosse pensado como um tónico para a moral dos defensores da cidade, moral essa que se desvanecia a olhos vivos nos últimos tempos do cerco.
Por outro lado, nada disso me parecia possível e, na verdade, sentia-me fascinado por esta figura que tão placidamente se encontrava no seu canto, com um ar mais preocupado e, acima de tudo, triste. A coisa mais distinta que tinha, para além das particularidades físicas que enumerei, era o seu cheiro. O seu cheiro, era estranhamente agradável. Tentei recordar-me das minhas leituras de anos atrás, se tal criatura havia sido descrita na Naturalis Historia de Plínio, mas nada do que me recordava se assemelhava a esta besta que perante mim se encontrava, nem Abarimon nem Nasamona teriam visto habitante assim certamente.
Recordei-me contudo das descrições que ouvi de um engenhoso pintor que havia conhecido poucos meses antes de um ser a que chamavam uma pantera. Era tarde, muito tarde aliás, e havia conversado com este homem que me havia descrito esta tal animal a que chamavam pantera e do qual havia já lido no Codice de Exeter como um animal solitário de um só inimigo entre os animais, a saber, o dragão. Dizia-me ele na altura que a pantera era como uma leoa, mas de patas mais longas e forma mais subtil, o que, convenhamos, nada se assemelhava a este urso que aparecia à minha frente, contudo, como digo, era tarde e este mesmo homem que me descreveu o animal, Leonardo de nome, também afirmava que nunca havia visto um, pelo que poderia ter-se enganado, de resto, a descrição era bem mais semelhante, constava que esta pantera tinha um pelo branco manchado de negro, ora também esta rara besta apresentava tão peculiar escolha de cores. Mais me havia contado que tal animal, pela sua beleza, encantava os outros animais que dela se aproximavam para andar com ela, mas que, receosos do seu olhar, o evitavam, pelo que a pantera sempre caminha com o seu olhar resguardado para não assustar os outros animais, e este focinho de urso que se apresentava na cela ao lado estava, e de facto havia estado todo o tempo, apontado ao metro de chão imediatamente seguinte ao local onde se havia sentado, como se temesse olhar em volta e se preocupasse apenas com os seus afazeres, reduzidos a mordiscar um tronco verde que, obviamente, não lhe fazia o gosto.
Seguro que se tratava portanto de uma pantera, pelas suas cores, pela sua beleza, sentia-me dividido em me aproximar dele, (é que, segundo ainda o Codice de Exeter, a pantera tende a devorar o animal que mais próximo dele se aproxima encantando com o cheiro que exala), e, sendo que de facto me parecia discutível ser este animal formoso, o facto é que o cheiro dele era distinto, em nada se assemelhando ao cheiro que eu próprio exalava, depois de duros meses de combate. O seu ar triste contudo, despertava em mim a mesma curiosidade que me havia feito visitar todos os três continentes da terra.
Decidi-me então a aproximar, confiando na força das grades que nos separavam, e observar este animal mais de perto. A minha presença parecia não lhe trazer o mais pequeno interesse e apenas mais perto dele pude observar que tinha um ar melancólico senão mesmo triste. Observava-o, e ele ignorava-me, e assim passámos seguramente umas cinco horas se não mais, até ao momento em que ele, para meu grande espanto falou, e disse: "Porque me olhas, esperas que faça nascer plantas das minhas lagrimas?"


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