
"Sim, lembro-me como se fosse ontem", disse, enquanto acendia mais um cigarro. "Na altura era um mercenário, pensava que já tinha visto muito na vida, pois era, note-se, já velho. É curioso aliás, que embora me lembre perfeitamente desse período, não me lembro que idade teria. Como mercenário que era, não tinha lugar fixo, devido à minha...digamos, condição, também há muito que tinha desistido de ter família. Acho que a minha última familia, assassinada nas invasões normandas, levou comigo a última cendelha de amor e compaixão que podia sentir, a única ligação à terra. Nessa altura, tornei-me nesta espécie de fantasma numénico que sou hoje..."
Ainda que, interrompi eu, na altura não se chamaria numénico certamente. Arrependimento imediato como reacção ao olhar recebido. Pareceu-me melhor deixá-lo continuar.
"Como contava, seria por volta do ano de 1480 ou 1490. Andava perdido pela província de Veneto em Itália, havia sempre trabalhos que uma pessoa podia fazer, assim como uma boa cruz que nos pudesse alimentar. Nesse período, as invasões otomanas deslocavam-se rapidamente para norte e Veneza encontrava-se cercada. No fundo, acho que sabia que Veneza acabaria por cair, chame-lhe experiência se quiser, mas mesmo assim, algo naqueles Otomanos me irritavam. Bayezid, simplesmente, merecia ser combatido, talvez se o pai liderasse a excursão, me tivesse mantido de fora, mas aquele Trácio dava-me calafrios. Assim, quando fui abordado por dois homens que procuravam braços na defesa de Veneza, de preferência que soubessem bem manejar uma arma, não tinha alternativa que não fosse de imediato aceitar sem sequer discutir que possível recompensa me seria prometida, devo ter sido o mercenário mais fácil de contratar na história da humanidade e, certamente, nunca tão facilmente me deixei convencer.
Escusado será dizer que alinhei pelo lado errado da batalha, isso está nos livros, mas na verdade, quando penso no que essa derrota me possibilitou, penso que acertei claramente na decisão que fiz. Se alguma vez tive sorte na vida, foi naquele momento. O cerco claro, durou anos, e durante dois anos ali combati alegremente, dentro do que se pode considerar alegremente para o que era combater na altura, como o senhor compreende. Tudo corria na normalidade, contudo, num mês de Agosto, fazia um calor desgraçado, quando me envolvi numa rixa por um jogo de dados. Um hospitalar qualquer, daqueles cristãos fundamentalistas que achavam que valia a pena morrer pela cruz, estava a fazer batota no jogo e a levar parte substancial do meu dinheiro (nunca consegui realmente gerir bem, nem a minha fortuna, nem o meu temperamento, pelo que jogar dados com batoteiros era algo que, à partida, já me deveria sempre abster de fazer). De qualquer forma, como disse, ocorreu uma zanga durante o jogo e, acidentalmente, matei o batoteiro hospitalar e dois amigos dele, a consequência era óbvia, terminaria no cárcel aguardando julgamento onde, mais que provável, seria condenado à morte. Se tentei fugir, claro que tentei fugir, mas de imediato fortes braços me agarraram e me prenderam ao chão. Algumas vozes até clamavam por justiça imediata, logo ali naquele lugar, haveria de ter sido um espectáculo bonito de assistir, tentarem executar-me ali, em frente de todos, mas felizmente a razão imperou (ou, eventualmente a falta de braços na defesa da cidade). Penso até, avaliando o quanto a situação estava desesperada, que se não fossem homens protegidos, me teria safado, mas como a sorte comigo nada queria, acabei no cárcel esperando sentença final.
Foi então nesse cárcel, ao final de três dias, que a coisa mais estranha aconteceu, um acontecimento que me mudaria a vida. Trazido durante a noite, em segredo, para a zona mais reservada, que era aquela que eu, digamos, habitava, pois palavra do meu triste feito havia já corrido entre os restantes prisioneiros, estava o mais estranho animal. Parecia um urso, contudo um urso como eu jamais havia visto. Andava sobre as quatro patas e em forma maneiresca de urso, era contudo, mais pequeno que os ursos que eu havia tido o hábito de caçar nas florestas negras, mas sentava-se constantemente e era, em geral, pacato. As patas dianteiras eram todavia, dotadas de garras como nos restantes ursos que já havia visto. A sua pele, era estranhíssima, com zonas de pelo preto e outras zonas de pelo branco, nunca tinha visto animal assim

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