sexta-feira, 30 de outubro de 2009

De como este homem teve uma discórdia sem saber porquê





Eu era exactamente como tu, era uma pessoa. Nasci numa terra longe daqui, uma cidade ao lado da qual Ormuz e Bagdad são meras sombras. É uma cidade que tem muralhas tão altas como Damasco, jardins tão belos como Bagdad e mulheres...que mulheres! mulheres mais belas que cada uma em si, encerra a beleza toda junta das mulheres do Cairo.

Foi nessa terra que nasci, o meu pai, governador amado do rei, tinha esta cidade a seu cargo. Lá fazia a sua vida, a sua felicidade e teve dois filhos, o meu irmão, era o filho mais velho e eu o mero infante, mas igualmente amado pelo meu pai e pela minha mãe.

Para a nossa educação, o meu pai não teve qualquer limitação ou receio, entregou-nos aos melhores educadores que encontrou, e de preferência aqueles que fossem mais liberais, se calhar, penso eu agora olhando para trás, ele queria assegurar-se que nenhumas trevas alguma vez toldassem o nosso espírito e a nossa maneira de pensar. Olhando para trás ainda mais, penso que se calhar tudo estava já escrito nas estrelas, e alguma feiticeira ou vidente o tivesse avisado do que estaria para acontecer.

Tive uma infância rígida, mas feliz. Acompanhado do meu irmão quase sempre, acordávamos cedo e tinhamos as nossas aulas, desde a matemática à poesia e astronomia, passando pela esgrima e pela etiqueta, tudo actividades que visavam o melhor para nós no futuro e onde, infelizmente, digo sem arrogância que sempre me revelava melhor aluno que o meu irmão, facto que entre nós era visível e que ele aceitava com um sorriso e um amor fraternal que fazia de nós indivisiveis.

A minha mãe era das mulheres mais belas da cidade, e isso era reconhecido por toda a população que a acarinhava enquanto mulher do meu pai. Em consequência, tanto eu como o meu irmão, embora não ache que fossemos especialmente bonitos, eramos vistos na cidade como tal, talvez por termos traços que recordava, quem quer que nos olhasse, dos traços da nossa própria mãe. Dela herdámos a discrição, do nosso pai, a força na espada e na justiça, feito que nele admirávamos substancialmente. Desde pequenos, aliás, ele deixáva-nos assistir aos julgamentos e outros afazeres de administração no reino, embora, confesse, enquanto pequenos pouco tempo eramos capazes de suportar sem nos aborrecermos, pois tudo aquilo nos parecia muito chato.

Com a idade contudo, e certamente com a educação que recebiamos, fomos entendendo a importância dessas coisas, de como a justiça e a sua aplicação célere eram a base da sociedade em paz, como a fome e a ignorância eram os verdadeiros motivos de todos os crimes, como a inveja e a vergonha eram coisas que, numa cidade tão bela, não tinham qualquer lugar. O que um desperdiçava, era dado àquele que o necessitava.

O meu irmão, o qual tomaria o lugar do meu pai no governo da cidade, completou a sua educação à idade de catorze anos, e partiu para cumprir as suas honras militares no perímetro exterior da cidade, eu seguiria dois anos depois para semelhante cargo, de forma que compreendêssemos a importância destes homens, que defendiam os nossos valores e forma de vida. Na última noite, despedimo-nos e professámos um ao outro a nossa amizade e mútua admiração.

À porta do palácio, antes dele partir para o acampamento, disse-me: "- Achas que nos casaremos?" pergunta que me deixou admirado e à qual respondi que certamente nos casaríamos, ele primeiro, como em tudo, eu em seguida, como em tudo. "- E teremos mulheres de igual dote e valor?", pois certamente disse-lhe eu, já que sendo irmãos filhos de iguais pais e de igual valor, nada faria mais sentido que casarmos com mulheres de igual dote e valor. Depois ele perguntou com ar de esperança e felicidade no futuro que imaginava, "- ...e os nossos filhos, teremos filhos?" Ao que mais uma vez acenei afirmativamente. "- E achas que se eu tiver um rapaz e tu uma rapariga, eles casarão um com o outro?" Pois claro, disse rindo, imaginando a coincidência, "- e darei à minha filha igual dote àquele que esperarei receber se a situação ocorrer ao contrário." Nesse momento o sorriso da cara dele apagou-se, e rapidamente disse: " -Certamente que nessa situação não será assim, não te esqueças irmãozinho, que eu sou o primogénito e tu apenas o segundo em linhagem. Embora de igual valor a mim, o dote que a minha filha receberia seria necessariamente maior que o da tua se acontecesse ao contrário, pois ela certamente valeria mais." Tomando o comentário como uma brincadeira, respondi apenas que assim não poderia ser, pois a minha filho, saíndo a mim, seria sempre mais inteligente, e por isso mais valioso, e que quanto ao título, pelo casamento ele acabaria sobrando para o meu lado da família". Com brusquidão ele virou costas, e foi-se embora. Foi assim que, sem me aperceber bem porquê, compreendi que eu e o meu irmão tinhamos tido a nossa primeira discórdia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Intermédio colado




"- Espere, desculpe interromper, esse animal que conta, falava?" - perguntei ainda mais incrédulo

"- Sim, falava..." - fez uma pausa enquanto acendia mais um cigarro, o qual começou a sorver parecendo abstraído da nossa conversa que havia pausado segundos antes - "...e eu sei o que estás a pensar, que eu devo ser um qualquer tipo de louco, ou que a qualquer momento vou pedir dinheiro ou algo assim, em troca da presença desta maravilhosa besta, mas não, conto-te o que vi, e o que ouvi, e quando ele me falou, ele falou, deixando-me com essa cara de parvo com que agora olhas para mim, enquanto eu fazia essa mesma pergunta parva que me fizeste agora. Pergunta a qual ele nem respondeu, limitando-se a voltar a olhar para o chão, como havia feito até aquele momento.

Irresistível pensei na altura, e com a segurança das grades e temerário - como aliás, sempre fui para minha infelicidade, pois o atrevimento levou-me a ver na minha vida muito mais do que queria - perguntei-lhe quem ele era, aliás, o que é que ele era, pois até isso queria saber. e ele contou-me uma das mais maravilhosas histórias que ouvi na minha vida...

domingo, 11 de outubro de 2009

2. De como este homem falou a um panda, pensando tratar-se de uma pantera



Perante este ser, de que nunca tinha visto ou ouvido falar, a ínicio preocupou-me que tipo de reacção poderia causar. Cheguei a pensar - disse-me - que fosse o meu carrasco e que deixá-lo na cela perto da minha fosse alguma piada de mau gosto, para que este estranho animal fosse aprendendo a reconhecer a sua presa, apenas para depois, em momento de execução publica, ser estilhaçado por este animal. Talvez a minha morte bárbara fosse pensado como um tónico para a moral dos defensores da cidade, moral essa que se desvanecia a olhos vivos nos últimos tempos do cerco.

Por outro lado, nada disso me parecia possível e, na verdade, sentia-me fascinado por esta figura que tão placidamente se encontrava no seu canto, com um ar mais preocupado e, acima de tudo, triste. A coisa mais distinta que tinha, para além das particularidades físicas que enumerei, era o seu cheiro. O seu cheiro, era estranhamente agradável. Tentei recordar-me das minhas leituras de anos atrás, se tal criatura havia sido descrita na Naturalis Historia de Plínio, mas nada do que me recordava se assemelhava a esta besta que perante mim se encontrava, nem Abarimon nem Nasamona teriam visto habitante assim certamente.

Recordei-me contudo das descrições que ouvi de um engenhoso pintor que havia conhecido poucos meses antes de um ser a que chamavam uma pantera. Era tarde, muito tarde aliás, e havia conversado com este homem que me havia descrito esta tal animal a que chamavam pantera e do qual havia já lido no Codice de Exeter como um animal solitário de um só inimigo entre os animais, a saber, o dragão. Dizia-me ele na altura que a pantera era como uma leoa, mas de patas mais longas e forma mais subtil, o que, convenhamos, nada se assemelhava a este urso que aparecia à minha frente, contudo, como digo, era tarde e este mesmo homem que me descreveu o animal, Leonardo de nome, também afirmava que nunca havia visto um, pelo que poderia ter-se enganado, de resto, a descrição era bem mais semelhante, constava que esta pantera tinha um pelo branco manchado de negro, ora também esta rara besta apresentava tão peculiar escolha de cores. Mais me havia contado que tal animal, pela sua beleza, encantava os outros animais que dela se aproximavam para andar com ela, mas que, receosos do seu olhar, o evitavam, pelo que a pantera sempre caminha com o seu olhar resguardado para não assustar os outros animais, e este focinho de urso que se apresentava na cela ao lado estava, e de facto havia estado todo o tempo, apontado ao metro de chão imediatamente seguinte ao local onde se havia sentado, como se temesse olhar em volta e se preocupasse apenas com os seus afazeres, reduzidos a mordiscar um tronco verde que, obviamente, não lhe fazia o gosto.

Seguro que se tratava portanto de uma pantera, pelas suas cores, pela sua beleza, sentia-me dividido em me aproximar dele, (é que, segundo ainda o Codice de Exeter, a pantera tende a devorar o animal que mais próximo dele se aproxima encantando com o cheiro que exala), e, sendo que de facto me parecia discutível ser este animal formoso, o facto é que o cheiro dele era distinto, em nada se assemelhando ao cheiro que eu próprio exalava, depois de duros meses de combate. O seu ar triste contudo, despertava em mim a mesma curiosidade que me havia feito visitar todos os três continentes da terra.

Decidi-me então a aproximar, confiando na força das grades que nos separavam, e observar este animal mais de perto. A minha presença parecia não lhe trazer o mais pequeno interesse e apenas mais perto dele pude observar que tinha um ar melancólico senão mesmo triste. Observava-o, e ele ignorava-me, e assim passámos seguramente umas cinco horas se não mais, até ao momento em que ele, para meu grande espanto falou, e disse: "Porque me olhas, esperas que faça nascer plantas das minhas lagrimas?"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

De como um estranho homem me contou como foi preso



"Sim, lembro-me como se fosse ontem", disse, enquanto acendia mais um cigarro. "Na altura era um mercenário, pensava que já tinha visto muito na vida, pois era, note-se, já velho. É curioso aliás, que embora me lembre perfeitamente desse período, não me lembro que idade teria. Como mercenário que era, não tinha lugar fixo, devido à minha...digamos, condição, também há muito que tinha desistido de ter família. Acho que a minha última familia, assassinada nas invasões normandas, levou comigo a última cendelha de amor e compaixão que podia sentir, a única ligação à terra. Nessa altura, tornei-me nesta espécie de fantasma numénico que sou hoje..."

Ainda que, interrompi eu, na altura não se chamaria numénico certamente. Arrependimento imediato como reacção ao olhar recebido. Pareceu-me melhor deixá-lo continuar.

"Como contava, seria por volta do ano de 1480 ou 1490. Andava perdido pela província de Veneto em Itália, havia sempre trabalhos que uma pessoa podia fazer, assim como uma boa cruz que nos pudesse alimentar. Nesse período, as invasões otomanas deslocavam-se rapidamente para norte e Veneza encontrava-se cercada. No fundo, acho que sabia que Veneza acabaria por cair, chame-lhe experiência se quiser, mas mesmo assim, algo naqueles Otomanos me irritavam. Bayezid, simplesmente, merecia ser combatido, talvez se o pai liderasse a excursão, me tivesse mantido de fora, mas aquele Trácio dava-me calafrios. Assim, quando fui abordado por dois homens que procuravam braços na defesa de Veneza, de preferência que soubessem bem manejar uma arma, não tinha alternativa que não fosse de imediato aceitar sem sequer discutir que possível recompensa me seria prometida, devo ter sido o mercenário mais fácil de contratar na história da humanidade e, certamente, nunca tão facilmente me deixei convencer.

Escusado será dizer que alinhei pelo lado errado da batalha, isso está nos livros, mas na verdade, quando penso no que essa derrota me possibilitou, penso que acertei claramente na decisão que fiz. Se alguma vez tive sorte na vida, foi naquele momento. O cerco claro, durou anos, e durante dois anos ali combati alegremente, dentro do que se pode considerar alegremente para o que era combater na altura, como o senhor compreende. Tudo corria na normalidade, contudo, num mês de Agosto, fazia um calor desgraçado, quando me envolvi numa rixa por um jogo de dados. Um hospitalar qualquer, daqueles cristãos fundamentalistas que achavam que valia a pena morrer pela cruz, estava a fazer batota no jogo e a levar parte substancial do meu dinheiro (nunca consegui realmente gerir bem, nem a minha fortuna, nem o meu temperamento, pelo que jogar dados com batoteiros era algo que, à partida, já me deveria sempre abster de fazer). De qualquer forma, como disse, ocorreu uma zanga durante o jogo e, acidentalmente, matei o batoteiro hospitalar e dois amigos dele, a consequência era óbvia, terminaria no cárcel aguardando julgamento onde, mais que provável, seria condenado à morte. Se tentei fugir, claro que tentei fugir, mas de imediato fortes braços me agarraram e me prenderam ao chão. Algumas vozes até clamavam por justiça imediata, logo ali naquele lugar, haveria de ter sido um espectáculo bonito de assistir, tentarem executar-me ali, em frente de todos, mas felizmente a razão imperou (ou, eventualmente a falta de braços na defesa da cidade). Penso até, avaliando o quanto a situação estava desesperada, que se não fossem homens protegidos, me teria safado, mas como a sorte comigo nada queria, acabei no cárcel esperando sentença final.

Foi então nesse cárcel, ao final de três dias, que a coisa mais estranha aconteceu, um acontecimento que me mudaria a vida. Trazido durante a noite, em segredo, para a zona mais reservada, que era aquela que eu, digamos, habitava, pois palavra do meu triste feito havia já corrido entre os restantes prisioneiros, estava o mais estranho animal. Parecia um urso, contudo um urso como eu jamais havia visto. Andava sobre as quatro patas e em forma maneiresca de urso, era contudo, mais pequeno que os ursos que eu havia tido o hábito de caçar nas florestas negras, mas sentava-se constantemente e era, em geral, pacato. As patas dianteiras eram todavia, dotadas de garras como nos restantes ursos que já havia visto. A sua pele, era estranhíssima, com zonas de pelo preto e outras zonas de pelo branco, nunca tinha visto animal assim